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e a cidade de Saint Nazaire

Convivendo com a megalomania em concreto. 0s bunkers nazistas 
e a cidade de Saint Nazaire

Carlos Smaniotto Costa

Smaniotto Costa, C. (2017). Convivendo com a megalomania em concreto. Os bunkers nazistas e a cidade de Saint Nazaire. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 211.04, Vitruvius, dez. 2017 http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.211/6830.

Resumo

Este artigo propõe apresentar uma reflexão sobre as consequências urbanísticas dos bunkers (casamatas de concreto armado) construídos durante a ocupação nazista na cidade francesa de Saint Nazaire. Estes bunkers não são só uma herança histórica, mas têm, pelas suas dimensões quase monstruosas, um forte presencial na morfologia urbana. Embora os bunkers tenham sido instalados em várias cidades, o caso de Saint Nazaire vale um olhar mais atento, pois a partir da reintegração deste “corpo estranho” inicia-se um processo de regeneração urbana. Com base no projeto camarário Port-Ville (Cidade-Porto) que inclui o reuso do bunker, são apresentados alguns resultados deste processo, bem como reflexões, construídas a partir da reinterpretação de um elemento adverso ao desenvolvimento urbano.

 

Abstract

In this article, the author sets up a reflection on the urban effects of the bunkers (submarine pens) built during the German occupation in the French city of Saint Nazaire. Bunkers are not only a historic legacy, but they have also a strong impact on urban fabric due to their almost monstrous dimensions. Although such bunkers have been installed in several cities, the case of Saint Nazaire is worth taking a closer look, as the reintegration of this giant foreign object is in the centre of urban regeneration agenda. Based on the rehabilitation Project Port-Ville (City-Harbour), which includes the reuse of the bunker, some results as well as reflections are discussed, built on the reinterpretation of an adverse element in urban development.

 

1. Introdução

Durante a ocupação pela Alemanha nazista da cidade francesa de Saint Nazaire foi construído uma base de submarinos; trata-se de um complexo militar de proporções monstruosas que hoje domina a paisagem urbana. A construção extremamente resistente inviabilizou a sua demolição. A solução encontrada foi a sua reabilitação e reutilização, numa tentativa de salvaguardar a história e tornar visíveis as aberrações da indústria de guerra. Ela é um símbolo da cultura militar e da ocupação nazista de Saint Nazaire, que aos poucos está sendo transformada em um novo espaço público. Usado hoje como museu, com cafés e bares se tornou um dos atrativos da cidade.

Neste trabalho o termo bunker é usado no sentido amplo para definir as edificações de concreto armado, algumas subterrâneas, que servem para abrigar soldados e armas (uso militar) ou para a proteção da população (uso civil). Embora com diferentes aspectos físicos, os efeitos destes dois tipos de bunkers na paisagem urbana são os mesmos. Este trabalho não tem a pretensão de fazer uma resenha histórica nem discursar sobre a ideologia nazista, mas sim sob o ponto de vista urbanístico tentar compreender o que significa para uma cidade conviver com estruturas gigantescas que hoje, além de obsoletas e supérfluas (desde o fim da guerra nunca tiveram um uso permanente), têm uma conotação histórica negativa.

2. O regime nazista e a construção dos bunkers

O regime nazista tinha planos para conquistar à força a Europa e o mundo. A sua ideologia se baseava na onipotência do aparelho estatal e em uma política racista, antissemita e antimarxista (1), e também na exaltação à forca e à violência. Com doutrina onipresente de Blut und Boden (lit. sangue e solo), justificava-se a expulsão e eliminação de povos não-germânicos, consideradas raças inferiores, inicialmente do território alemão e em seguida dos países ocupados. Essa política segregacionista e excludente estendeu-se contra todos os assim considerados “degenerados”, grupos antissociais e adversários políticos, e culminou no homicídio sistemático, conhecido como Holocausto (Rosenthal, 1980).

Com a ocupação de outros países tornava também necessário defendê-los. Um extenso plano de defesa, como o regime nazista comumente se expressava (Atlantik Wall Forum), previa uma vasta rede de fábricas, de depósitos de materiais bélicos e de bunkers; construções que deveriam resistir às bombas até então conhecidas. Muitas destas construções são subterrâneas e pouco conhecidas, enquanto outras foram construídas em áreas residenciais, para servir de abrigo à população ou camufladas para passarem desapercebidas.

Para a proteção das zonas costeiras da Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica e França ocupadas foi construído a partir de 1940 um gigantesco colar de bunkers, casamatas e fortificações, transformando a costa ocupada da Europa continental em uma verdadeira fortaleza. Esses bunkers posicionados estrategicamente ao longo de quase 2.700 quilômetros entre o Mar do Norte e o Golfo de Biscaia, no Atlântico, representam na realidade somente uma pequena peça do que seria como “meta final” um novo Muro Ocidental, que do Oceano Ártico até o Mediterrâneo deveria impedir quaisquer operações de desembarque dos Aliados. Para a execução deste projeto, chamado de “Atlantikwall” (lit. Muralha do Atlântico), foi criada em 1940 a Organisation Todt (Zaloga, 2007), uma organização militar dirigida pelo engenheiro Fritz Todt, Ministro de Armamentos e Munições (Reichminister für Bewaffnung und Munition). A zona do Canal da Mancha e a costa atlântica francesa, pela proximidade com a Grã-Bretanha – o inimigo mor do regime nazista, eram consideradas de importância estratégica (DHM). Aqui a Organisation Todt começou em 1940 a posicionar armamentos pesados, protegidos por muros de concreto. Esta porção da costa recebeu 11.000 dos 15.000 bunkers construídos (Zaloga, 2007). É também nesta porção da costa francesa que os alemães constroem sete das 12 bases de submarinos; nos portos das cidades de Brest, Lorient, Saint Nazaire, La Pallice e Bordeaux, sendo as cinco outras instaladas na Alemanha e Noruega (Zaloga, 2007). Para essas construções o regime nazista valeu-se sistematicamente do trabalho braçal de milhões de prisioneiros; só na costa francesa o número chegou a mais de 290.000 trabalhadores forçados (Williamson, 2003).

Nem todos os bunkers são hoje plenamente conhecidos. Por se tratar de obras militares, muitas vezes secretas, poucos tinham acesso a informações. Muitos documentos, ou foram intencionalmente destruídos ou foram perdidos com a guerra. Por outro lado, o regime nazista, para alimentar a sua máquina da propaganda, mas também para satisfazer Hitler, como tantos outros atos (Der Spiegel), documentou minuciosamente a construção dos bunkers. Muitas das fotos tiradas na época da sua construção estão conservadas em museus europeus. A revista alemã Der Spiegel disponibiliza em seu site uma série de 26 impressionantes imagens. Todo esse esforço militar, foi porém em vão: os nazistas perderam sucessivamente as batalhas navais, e algumas bases, como Lorient, foram pesadamente bombardeadas e se tornaram inutilizáveis (Williamson 2003). Quando os Aliados desembarcaram na Normandia, em 6 de junho de 1944, o Atlantikwall, ainda incompleto, não protegeu o Estado Nazista de ser aniquilado (Zaloga, 2007).

Apesar dos maciços bombardeamentos, os Aliados não conseguiram destruir muitas destas monumentais construções. O que resta são incontáveis ruínas, muitas ainda intactas, que dominam o panorama de alguns portos, como Saint Nazaire e Bordéus. Enquanto poucos bunkers, reutilizados se tornaram atrações turísticas, inúmeros caíram no esquecimento. Um aspeto comum é que muitas cidades buscam hoje ideias e alternativas para tratar essas monstruosidades de concreto, reminiscências da ocupação nazista. Essa realidade não desafia somente cidades fora da Alemanha. O país também viu a construção de bunkers em seu território, seja como abrigos antiaéreos ou como indústrias bélicas camufladas, principalmente em áreas centrais e densamente habitadas. Desde 1939 a cidade de Hannover, por exemplo, presenciou a construção de 47 dos 53 bunkers planejados, sendo que hoje 39 ainda existem, com um destino bastante incerto, já que eles, com o desenvolvimento de novos armamentos não mais oferecem proteção. A demolição destes bunkers é bastante onerosa, como prova a demolição de um abrigo subterrâneo de 1942 no centro da cidade. Com paredes de 1,8m de espessura, a demolição exigiu várias implosões, ocasiões em que por motivos de segurança os prédios vizinhos tiveram que ser evacuados. A demolição custou aos cofres públicos 1,5 milhão de euros e foram necessários mais de 3 meses (Stadt Hannover). Em virtude dessas dificuldades, alguns bunkers foram reciclados para outros fins, mas a grande maioria permanece sem uso. Como o bunker de Hannover se encontrava a 2m abaixo da superfície, a área nunca pode ser aproveitada, e serviu por muitos anos como um mero estacionamento. O jornal local dispõe de uma série de imagens do bunker e da sua demolição (9). Com a retirada do bunker está sendo construído um complexo residencial e comercial de caráter social, com residências equipadas para a terceira idade e apartamentos pequenos com o aluguel reduzido, além da instalação de um jardim de infância. A nova edificação deverá seguir as novas normas de eficiência energética, conhecido por “casa passiva” – passive house design (GBH).

3. A cidade de Saint Nazaire

A cidade de Saint Nazaire, com 68 mil habitantes (INSEE), fica na região de Pays de la Loire, na desembocadura do Rio Loire no Atlântico. Devido a esta localização, a cidade tem longa tradição em pesca e construção naval. A ocupação desta margem do rio remonta ao período neolítico, já foi parte do Império Romano e desde 1532, com a anexação do Ducado da Bretanha pela França, pertence ao território francês. Com uma posição estratégica, o seu porto sempre teve certa importância, porém por várias disputas regionais e internacionais o porto não se desenvolveu continuamente (Mairie). No período colonial, o porto da cidade de Nantes, cerca de 60 km a montante, tornou-se o maior entreposto comercial da Europa. Como o transporte de mercadorias exigia embarcações cada vez maiores e o Rio Loire não permite o tráfego de navios de grande calado, o porto de Saint Nazaire foi absorvido pelo porto de Nantes que passou a administrá-lo (MSN a). Em 1853 o porto é modernizado, duas docas com canais de acesso e comportas foram instaladas, isso permitiu controlar o nível de água e possibilitou o uso das docas independente da maré (Williamson, 2003). O porto tornou-se uma base naval da Marinha e foi um importante centro da indústria naval francês. Em 1932, foi instalada a até então maior doca seca do mundo para a construção do transatlântico SS Normandie (Wiki).

4. Saint Nazaire e as bases militares

Ao fim da Primeira Guerra Mundial, Saint Nazaire se tornou um importante porto de desembarque das tropas Aliadas, particularmente para o exército norte-americano, que ao entrar no conflito desenvolveu a partir de 1917 a infraestrutura da cidade e do porto, com a construção de estações de tratamento de água potável, docas e armazéns de abastecimento. Na Segunda Guerra Mundial o porto assumiu uma função estratégica importante. Em maio de 1940 o exército nazista ocupou a França e declarou toda a costa como zona militar, colocando-a fora do acesso aos civis, exceto para os habitantes locais, que necessitavam de um passe especial (Williamson, 2003).

Em janeiro de 1941, iniciou-se a construção da base de submarinos em Saint Nazaire, que ao contrário das outras bases foi instalada nas docas existentes, separando a cidade de seu porto. A base é composta por vários edifícios e dois bunkers para os submarinos. O bunker 1 com docas para 14 submarinos é de proporções impressionantes: 291 m de comprimento, 124 m de largura e 18 m de altura acima do solo, com uma superfície de 37.500 m2 exigiu 313.000 m3 de concreto (Port de Nantes and Saint Nazaire). Tinha depósitos para munições e torpedos, casas de máquinas e transformadores, 62 oficinas diversas, 150 gabinetes e escritórios para a administração, além de quatro cozinhas e serviço médico-dentário, e nos 92 alojamentos pode abrigar o pessoal de manutenção e a tripulação dos submarinos. Mais de 4.600 trabalhadores foram requisitados pela Organisation Todt para a construção deste complexo (Uboat).

No início de 1943, o governo militar alemão lançou as bases para o bunker 2 . O ataque aliado de 27 de março de 1942, foi o evento que levou os alemães a melhorar o seu sistema de defesa e proteger de forma mais eficiente a entrada e saída de submarinos. Até aquele momento, os submarinos tinham que vir à tona para entrar e sair do complexo, o que os tornava vulneráveis. As dimensões do bunker 2 também são impressionantes: 150 m de cumprimento, 25 m largura, 15 de altura, das quais 7 m sob o nível do solo. O telhado tem quatro guaritas para armamento antiaéreo e no ângulo oriental uma cúpula blindada dava abrigo a uma metralhadora pesada. Embora concluído no final do ano de 1944, este bunker parece nunca ter sido usado pelos alemães (Williamson, 2003).

Ao final da guerra, a base foi um dos principais alvos dos Aliados, tonando a cidade e seus habitantes as principais vítimas dos 13 bombardeamentos. Em 1943, ao perceber a impossibilidade de neutralizar a base, os Aliados decidem dificultar o seu funcionamento através de incessantes bombardeios (16). Os maiores ataques aconteceram em março de 1942, durante a chamada Operation Chariot ou Saint Nazaire Raid (Wiki), quando 85% da cidade foi destruída (o site http://rikostnaz.blogspot.de mostra uma série de fotos tanto da destruição quanto da reconstrução da cidade). Porém a base não sofreu nenhum dano significativo e continuou operando até o fim da guerra. Em 1944, quando quase toda a França já havia sido libertada, a base de Saint Nazaire ainda permanecia em poder dos alemães, que ficaram cercados por forças americanas e da Resistência Francesa até maio de 1945. Ao fim da guerra a Marinha francesa assumiu a base, usando-a até 1948 para a reparação de navios de guerra e, mais tarde, para fins comerciais. Em seguida, ela foi usada por diversos estaleiros, e finalmente, até cair em desuso, como depósito para adubos e grãos por empresas agrícolas. Depois disso, a base permaneceu abandonada por muito tempo, até que em 1994 o município de Saint Nazaire decidiu pela integração da área ao tecido urbano.

5. A herança, a reconciliação e o convívio

No pós-guerra, Saint Nazaire foi reconstruída de costas para o mar e seu porto. Negando as estruturas urbanas do pré-guerra e partindo de uma tabula rasa, a cidade foi repensada sob o espirito modernista, onde prevaleceu o estilo minimalista, com arruamento de traçado ortogonal e parcelas simétricas. A espinha dorsal da reconstrução é uma larga avenida, a Avenue de La République que liga a nova Praça do Município e a sede da Câmara (Hotel de Ville) com a nova estação ferroviária, construída ao norte, após o remanejamento de toda a malha ferroviária. Com a Avenue de La République criou-se um novo eixo comercial. A exemplo de outras cidades modernistas, o plano de reconstrução de Saint Nazaire foi minuciosamente elaborado, com regras rígidas de zoneamento e para mobilidade. Para as edificações, por exemplo foram criadas regras de volumetria, proporção, uso de cores e ornamentos (MSN a). Em 1962 a reconstrução de Saint Nazaire foi considerada concluída (MSN b).

Nos anos 1990 a construção de um novo porto a leste da cidade, apto a receber os grandes porta-contêineres e petroleiros, tornou o antigo porto obsoleto. Abrindo assim novas perspetivas para a reintegração da estrutura portuária à malha urbana. Em uma reflexão sobre o futuro da cidade, questionou-se não só a relação entre a cidade e o porto, mas principalmente o destino da base de submarinos (MSN b). Em 1995 é lançado um concurso internacional com o objetivo de captar ideias para a reintegração do porto à cidade. As propostas deveriam também desenvolver ideias para incrementar atividades comerciais e de lazer, criar uma infraestrutura de suporte cultural e de turismo, designar áreas para a construção de novas habitações, para a remodelação das áreas públicas e a melhoria da circulação do tráfego e de estacionamento (MSN c). Em 2000 o município lançou o programa Ville-Port (lit. Cidade-Porto) baseado nas propostas elaboradas por Manuel de Solá-Morales, o arquiteto e urbanista Barcelonês vencedor do concurso (de Solà). Através deste programa, o complexo portuário passou paulatinamente a ser reciclado e recebeu novas infraestruturas, incluindo vários museus, entre eles um museu ecológico (MSN b) que, apesar do nome, é mais um museu naval, com réplicas de transatlânticos e algumas maquetes da cidade. No bunker 2 foi aberto a visitação o submarino Espadon, que entre 1960 e 1987 fez parte da Marinha francesa.

Em abril de 2000, as antigas docas foram abertas ao público seguindo da transformação do bunker 1 em um centro cultural, agora denominado Escal’Atlantic. Esta base de submarinos, que por décadas não passou de um formidável obstáculo entre a cidade e as docas, não foi destruída, mas integrada à cidade. O Escal’Atlantic transformou-se em um espaço central com diferentes instalações, tais como salas de exposições, cinemas e espaços comerciais com lojas, restaurantes, bares e cafés. Embora ainda seja um corpo estranho, principalmente pela sua dimensão, encontra-se agora melhor conectado a seu entorno, onde novos conjuntos habitacionais, áreas comerciais e serviços formam sendo introduzidos, e como elemento de conexão entre esses novos usos foram criados novos espaços públicos. Os itinerários dos transportes públicos também sofreram modificações para melhor integrar a área ao restante da cidade. Em frente ao Escal’Atlantic, como seu salão de entrada foi criada a Praça Marceau, que construída em vários níveis aproveita o relevo acidentado. Dela parte uma rampa que leva pedestres diretamente ao telhado da base. Essa rampa, denominada Ponte dos Dois Séculos, com nove metros de largura, é na realidade uma nova esplanada e um convite para ir-se até o telhado da base, de onde sobre pontões de madeira se descortina uma espetacular vista panorâmica da cidade, do porto e do estuário do Loire. Ao longo do rio, obras de Gilles Clément e Felice Varini, instaladas como parte da bienal de arte contemporânea Estuário Nantes – Saint Nazaire (Bienal; Masboungi, 2012) criam uma série de atrativos ao longo de toda a paisagem portuária. Sob a égide do Programa Cidade-Porto, vários projetos, tanto públicos como privados vem sendo implementados, criando-se novos serviços à comunidade como um cinema, novas áreas habitacionais, um centro comercial, um hotel três estrelas etc., todos intercalados com novos espaços públicos. Em 2011, no local da antiga estação ferroviária e junto ao Escal’Atlantic foi construído o novo Teatro Municipal. A linguagem arquitetónica de para o teatro é emprestada do monolítico gigante e da áspera forma do bunker. O teatro que reintegra a como foyer partes da antiga estação, é também um monólito de concreto aparente, adornado com elementos florais, que segundo os arquitetos cria um link romântico para a estação e para os teatros românticos (K architectures).

As melhorias nos espaços públicos e a reintegração do porto à cidade ganhou menção em 2002 nos arquivos do Centre de Cultura Contemporània de Barcelona (CCCB). Com os projetos e iniciativas do Projeto Porto-Cidade essa área, outrora desvinculada da cidade e esquecida, tornou-se um endereço e um destino. É interessante notar o contraste de cores e materiais entre os novos elementos (a rampa de acesso, a Praça Marceau com vegetação exuberante, pavimentação colorida da nova área de estacionamento) e o cinza do bunker e das construções portuárias. Esse contraste reforça a presença esmagadora de uma construção colossal cujas dimensões brutais, físicas e simbólicas, estão aos poucos sendo corrigidos por elementos que introduzem uma lógica mais humana, tanto para os arredores quanto para o interior da construção (MSN d).

6. A apropriação do Bunker: Jardins da Terceira Paisagem

O topo do bunker 1 não só oferece um panorama deslumbrante quanto induz à reflexão – principalmente através das obras instigadoras lá instaladas. A primeira se trata de uma série de fotografias sobre a relação entre a cidade o seu porto e os bunkers. Em um outro projeto, o paisagista Gilles Clément projetou entre 2009 e 2011 o tríptico Jardins du Tiers-Paysage (lit. Jardins da Terceira Paisagem) (Coloco), uma alusão às paisagens produzidas/manipuladas pelo homem, e que quando não mais necessárias são abandonadas à própria sorte. O tríptico é composto por unidades isoladas e dispersas no topo da base, ocupando uma área total de 2 ha. Clément usa espécies naturais da paisagem do estuário do Loire e espécies compatíveis com as condições específicas do piso da base – microclima, exposição e substrato reduzido. O paisagista vê aqui “um lugar de resistência”, capaz de acomodar a diversidade ecológica do estuário e espécies pioneiras num local inóspito, constituindo um novo estrato sobre a arquitetura militar original. O tríptico é composto pelo Bosque de Choupos (Bois des Trembles), que ocupa a parte onde a última laje do telhado não chegou a ser construída mostrando as vigas aparentes de concreto que criam vários compartimentos. Cento e sete arbustos da espécie Populus tremula (conhecidos por choupo-tremedor) emergem destes compartimentos formando à distância um bosque, que só pode ser apreciado à distância, desde os pontões construídos sobre as vigas. O choupo-tremedor foi escolhido pelas suas qualidades cinéticas – as folhas, como o nome indica, tremulam incessantemente ao menor sopro de ar e parecem brilhar pelo contrate de coloração entre o verso (verde-acinzentado e pálido) e o reverso das folhas (verde fresco e brilhante).

O Jardim dos Sedum (Jardin des Orpins) ocupa a parte central. Aberturas nas enormes vigas, denominadas por Clément de portas comunicantes, permitem a conexão visual entres os diversos compartimentos. Um espelho de água atravessa vários compartimentos criando novas perspectivas e, ao mesmo tempo, impedindo a transposição dos compartimentos. Acompanham o espelho várias espécies de Sedum, Euphorbia e gramíneas. As altas vigas não permitem que o jardim seja visível na sua totalidade, ele pode somente ser apreciado em fragmentos ao se caminhar pelos pontilhões.

O Jardim das Etiquetas (Le jardin des Etiquettes) ocupa uma depressão retangular no telhado, onde foi colocado um fino substrato até a superfície se tornar plana. As plantas, espontaneamente trazidas pelo vento ou pelos pássaros, quando aqui se instalam, são identificadas e rotuladas, daí o seu nome.

7. Observações finais

A história deixa rastros que são, em muitos níveis, difíceis de digerir, principalmente na esfera urbana (CCCB), levantando a questão de como conviver com “rastros” que hoje são inóspitos. A base de submarinos em Saint Nazaire, um legado bélico nazista, condiciona a história da cidade e suas relações com o porto. Este bunker sempre dificultou a integração física e funcional e, portanto, social do porto à cidade, e fez com que a população convivesse com este corpo estranho e de proporções monstruosas. A Câmara de Saint Nazaire iniciou um processo de reversão desta situação que vale a pena um olhar mais atento. Com o Projeto camarário Port-Ville, que compreende uma série de elementos distintos, mas complementares, a Câmara de Saint Nazaire visa melhor a qualidade de vida e com isso a autoestima da população (20). O tecido urbano agora mais contínuo e perfurado, e com diferentes densidades, cores e materiais enriquece o minimalismo modernista, e ameniza a rispidez dos bunkers. O projeto é também uma resposta (psicológica e espacial) à tensão simbólica e física entre a cidade e a base de submarinos. O Escal’Atlantic transformou a base como uma âncora criando novas oportunidades. A apropriação e inclusão de atividades de lazer, culturais e comerciais no interior do bunker abre novas perspetivas, embora as intervenções não envolveram nenhuma alteração substancial em sua estrutura. Se a silhueta maciça e cinza era um marco de isolação, introversão e acesso restrito, hoje do mirante no telhado se vislumbra um panorama que somente deste vazio, altura e distância pode ser visto em seu todo. A conversão do bunker cria não apenas um novo atrativo, mas dá também um lugar à reflexão – sobre a indústria de guerra e as usas consequências. As soluções encontradas em Saint Nazaire podem servir de exemplo, pois elas reúnem os diferentes episódios da história e da geografia da cidade, tornando permeável um complexo isolado, trazendo-o de volta à cidade.

Os bunkers, não só em Saint Nazaire como nas tantas outras cidades, continuam sendo um imponente remanescente da Segunda Guerra Mundial, mas com o Projeto Port-Ville criam-se novos usos e novas perspetivas sobre a história e a produção da cidade. O projeto é um claro sinal de mudanças. Talvez a chave esteja na compreensão de que todas as cidades no seu contexto local são extraordinariamente privilegiadas, basta descobrir e compreender os potenciais. Outra lição importante: investir em espaços públicos de qualidade e adequados às necessidades da população sempre traz bons frutos. Em Saint Nazaire o espaço residual deu lugar à celebração do que chamamos urbanidade – criaram-se espaços com uma variedade de formas, capacitados a acolher uma gama de funções, enquanto calmamente estimulam a interação com o elemento natural. E prova que a presença e apropriação pela população continua a ser um fator determinante para superar barreiras físicas e simbólicas que sempre significaram isolamento total. Em todo processo de mudanças há três atores igualmente importantes: de um lado profissionais qualificados, sejam urbanistas, paisagistas etc., capazes de tanto desenvolver ideias e estratégias cativantes e inovadoras, como de usar recursos de maneira sustentável. Do outro lado, precisamos de gestores públicos e de políticos que, ao acreditarem nessas ideais e no diálogo, as priorizem na agenda política (e orçamentária). Entre ambos, temos a população, para quem afinal produzimos a cidade, e que deve ser protagonista no processo e participar da tomada de decisões.

Referências

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