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III Fórum Mundial dos Direitos Humanos (Buenos Aires, Argentina)

Decorreu, entre os dias 20 e 24 de março, o III Fórum Mundial dos Direitos Humanos (2023) em Buenos Aires (Argentina). Este evento, dada a sua dimensão, teve lugar em quatro espaços da Cidade de Buenos Aires, em simultâneo: Espaço Memória e Direitos Humanos, Comissão Nacional de Energia Atómica, Faculdade de Arquitetura e no Centro Cultural Kirchner.
De acordo com dados disponibilizados pela organização, nos quatro dias do encontro participaram mais de 21 mil pessoas, de 98 países. Contou com mais de 950 organizações diretamente envolvidas e foram desenvolvidas mais de 1100 atividades. Realizaram-se também 206 atividades culturais. Estiveram presentes cerca de 200 especialistas de referência em Direitos Humanos, que participaram em diversos painéis, painéis esses que contaram com um total 2300 participantes. Foram também acreditados cerca de 390 jornalistas.
O Espaço Memória e Direitos Humanos, o local onde decorreram a maior parte das atividades deste Fórum, situa-se na antiga ESMA – Escola de Mecânica da Armada, que ficou na memória coletiva da cidade de Buenos Aires como local de prisão política e tortura durante a ditadura militar (entre 1976 e 1983). Crê-se que durante esses obscuros sete anos foram assassinadas e desapareceram mais de 30 mil pessoas por razões políticas. Uma realidade e memória que se mantém muito viva na Argentina através, sobretudo das “Mães de la Plaza de Mayo”, um movimento social de mães que se começaram a manifestar frente ao palácio presidencial, a perguntar pelos seus filhos desaparecidos, ainda no período da ditadura. As “Mães de la Plaza de Maio” tornaram-se uma inspiração e uma força simbólica para todos os argentinos e argentinas que lutam pelos Direitos Humanos e contra o regresso de uma ditadura: Ditadura “Nunca mais!”.
Esta forte memória fez-se sentir intensamente ao longo de todo o Fórum e em todo o tipo de atividades.
As intervenções artísticas foram essenciais para transformar um espaço de prisão, tortura e morte, num espaço luminoso de Vida e de acolhimento.
Este evento aconteceu no ano em que se celebram 40 anos de democracia ininterrupta na Argentina.
Os painéis decorreram em torno dos vários eixos temáticos, que abrangeram todos os domínios da vida coletiva: acesso à Justiça; a Educação para os Direitos Humanos; Saúde e Direitos Humanos; Crianças, os adolescentes e jovens e os Direitos Humanos; Direitos das Mulheres; as questões de género, diversidade e o direito à identidade; Direito à Paz e a não-violência; Ambiente e desenvolvimento sustentável; Economia e Direitos Humanos; Comunicação e Direitos Humanos; Comunidades e povos indígenas; Direito à Terra; Direito à cidade e conflitos urbano; Políticas culturais e Direitos Humanos; Desenvolvimento social inclusivo e coesão social; Políticas de memória, verdade, justiça e garantia de não repetição; Deficiência e Direitos Humanos; Discriminação, xenofobia e racismo.
Estes eixos temáticos mostram-nos a relevância e a abrangência dos Direitos Humanos na atualidade.
O painel do eixo temático “Direito à Paz e à não-violência” contou com uma intervenção absolutamente marcante do prémio Nobel da Paz argentino (1980), Adolfo Perez Esquível, Presidente Honorário do Forum dos Direitos Humanos. Começou por nos propor um pequeno exercício, que nos apresentássemos a quem estava sentado ao nosso lado, como forma de nos ligarmos uns aos outros, de nos conhecermos, essencial para nos respeitarmos na diversidade e para que haja Paz.
Depois lembrou como a Paz é muito mais do que a ausência de guerra, pois no mundo capitalista em que vivemos existem formas muito subtis de violência. Afirmou que a Paz é uma construção diária, que não existe sem Direitos Humanos, construção essa que exige uma revolução cultural que deve iniciar-se pelos mais novos, pela escola. Terminou com uma história de uma intervenção de Eduardo Galeano, para sublinhar a importância da democracia participativa e de nos unirmos para enfrentar as adversidades, respeitando todas as nossas diferenças, dialogando, enfrentando e resistindo: Um dia um cozinheiro muito democrata entra na sua cozinha e vai ter com os animais que por lá andavam, o perú, o leitão, a galinha, a rola, a perdiz, o borrego, …, e começa a perguntar, um a um, com que molho gostaria de ser cozinhado. Os animais olham à volta, nenhum deles quer ser cozinhado, e de repente percebem que se unirem contra o cozinheiro, ele não vai conseguir o seu intuito.
Adolfo Perez Esquível não terminou a sua intervenção sem colocar as seguintes questões: a que sabe o sal? A plateia respondeu: Salgado. E a Paz, a que sabe?
De imediato a sua companheira de mesa retorquiu: a Paz tem todos os sabores e tem todas as cores. É com as nossas diferenças, mas em diálogo uns com os outros, que temos que ir construindo um mundo melhor.
Participou no III Forum Mundial dos Direitos Humanos – 2023 a Professora Margarida Belchior, investigadora integrada no CeiED e membro do ReLeCo NEISE, que para além de conhecer uma nova realidade socio-histórica aproveitou também para estabelecer contactos nas suas áreas de investigação.
Página do Fórum: fmdh23.org