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Paulo Freire: uma leitura aprofundada e a lupa da teoria crítica. Memória de uma Oficina com Carlos Alberto Torres
Celebrando o seu centenário, como pensar na atualidade de Paulo Freire e que outros pensadores podem contribuir para essa reflexão? Carlos Alberto Torres,Distinguished Professor na University of California at Los Angeles (UCLA), fundador e diretor do Instituto Paulo Freire em diversas geografias, sociólogo político da educação de referência mundial, dinamizou uma Oficina CeiED onde nos incluiu num percurso denso de leituras, questionamentos e diálogos.
Ao longo das cinco sessões desta Oficina, Carlos Alberto Torres guiou-nos entre metodologia, metalinguagem, metateoria e teoria de Paulo Freire, refletindo-as face ao quadro da teoria crítica alemã nas suas diversas gerações, com especial enfoque no trabalho de Hartmut Rosa.
Freire é ampla e justamente reconhecido pelo seu legado relativo à formação e alfabetização de adultos; porém, as referências ao seu trabalho não podem restringir-se a este campo. Partindo da realidade empírica da experimentação em alfabetização, Freire potenciou o desenvolvimento de inovações teóricas e metodológicas, nomeadamente com a defesa do questionamento como mecanismo pedagógico e da investigação-ação participativa.
Entre poética e política, Freire associa uma cosmovisão dos setores socialmente subordinados (através da força da sua Pedagogia do Oprimido) à defesa da educação que ativa a consciência crítica e potencia a libertação, à comunicação dialógica que incorpora e reconhece a cultura popular e à defesa da democracia humanista que permite a melhoria da condição social. Não isola a educação no espaço escolar nem nega a relação entre educação e política; reconhece a importância do contexto educativo bem como a utilidade do Estado para compreender a natureza política da educação e a formação de políticas públicas. Tal não subtrai a importância atribuída aos movimentos sociais, motores da descolonização e do trabalho revolucionário, que exercem pressão sobre o Estado e assim possibilitam a mudança.
A mudança, horizonte utópico do “inédito viável”, também se associa de forma próxima à ação dos educadores, radicada numa pedagogia da esperança e num conjunto de virtudes cívicas que permitem superar os dilemas da globalização, destacando-se a ética de liberdade/autonomia e o diálogo como método, código para a democracia radical e prática pedagógica estratégica.
Observando a proximidade entre Freire e a teoria crítica alemã, considere-se a partilha do tema dialógico e a importância do reconhecimento, do trabalho e da comunicação. Com a quarta geração da Escola de Frankfurt associada ao trabalho de Hartmut Rosa, destaca-se a aproximação da tese sobre ressonância ao legado de Freire: em contexto de modernidade tardia, temos um antídoto da alienação onde e quando entramos em ressonância com o mundo, os lugares e as coisas, as pessoas e tudo o que nos move.
A Oficina “Ciência da Experiência da Consciência. Uma hermenêutica-análise da Obra de Freire” decorreu nos dias 7, 8, 9, 21 e 22 de Junho de 2022, na Universidade Lusófona (Lisboa) e online. Inseriu-se no projeto Global Citizenship Education – inclusion and sustainability, vencedor de financiamento Fulbright Specialist para a visita de Carlos Alberto Torres à Universidade Lusófona.